John Zorn COBRA : Portuguese Ensemble : Reviews

Casa da Música
30 de Outubro 2005, Porto, Portugal

Carlos Zíngaro, violino
Carlos Bica, contrabaixo
Henrique Fernandes, contrabaixo
Nuno Rebelo, guitarra
José Miguel Pinto, guitarra
Albrecht Loops, guitarra/twintar
João Martins, ContraTear/MeSA
Rodrigo Pinheiro, piano
Eurico Amorim, fender rhodes
Gustavo Costa, bateria
Jorge Queijo, bateria
Manuel Campos, percussão
Mário Teixeira, percussão

John Zorn, o maestro do caos @ Público

disponível em pdf

De John Zorn não seria de esperar um concerto normal. O nova-iorquino, actualmente com 52 anos, é célebre por trazer para o jazz a bizarria, o humor e a obsessão pós-moderna de juntar géneros aparentemente antagónicos. Nos seus múltiplos projectos de uma carreira com mais de 400 álbuns, Zorn passou por quase todos os géneros musicais, do jazz ao grindcore, passando pela música para desenhos animados e o klezmer.

Para a versão nacional do projecto Cobra - a game piece mais conhecida de Zorn -, o veterano seleccionou 13 músicos portugueses, dos mais diversos estilos (do jazz à pop). Entre eles, estavam o violinista Carlos Zíngaro e o contrabaixista Carlos Bica, mas também músicos da nova geração de improvisadores nacionais, como Gustavo Costa (bateria) e Henrique Fernandes (contrabaixo). Todos eles passaram o domingo a aprender as regras intrincadas e desconhecidas para o público que subjazem a cada incarnação do projecto num workshop dirigido por John Zorn.

Quem esperava ouvir o saxofone do norte-americano pode ter ficado desiludido porque, no Cobra, Zorn assume o papel de maestro de uma orquestra de improvisadores. Em palco, duas baterias, dois conjuntos de percussão, um violino, três guitarras (uma delas do histórico Nuno Rebelo), dois contrabaixos, um piano eléctrico e um contratear, num total de 13 músicos, formavam um semicírculo voltado para Zorn, que lhes dava ordens através de gestos e cartões coloridos.

Por vezes, ordenava a um músico que colocasse um fita branca na cabeça, tornando-o segundo líder do ensemble durante algum tempo. Noutros momentos, punha apenas uma parte do conjunto a improvisar para fazer entrar outro grupo de músicos, gerando curiosos diálogos; noutros ainda, isolava um membro para fazer cair mais tarde a dissonância colectiva ou apontava para os músicos, um a um, para que fizessem soltar um qualquer som do seu instrumento. Em suma, assistiu-se a uma sessão de improviso coordenado, um curioso exercício entre a democracia e o totalitarismo.

Carlos Zíngaro assumiu algum destaque no conjunto. A segunda peça, por exemplo, teve o seu violino como eixo, seja sozinho ou como fio condutor, a que se juntaram os outros instrumentistas. Noutra peça, Jorge Queijo tocou bateria com martelos de S. João, num dos momentos mais bem-humorados da noite. Noutra,Albrecht Loops explorou o ruído, aplicando um ferro às cordas da guitarra, num silvo eléctrico que deliciou Zorn, que estimulava constantemente os músicos, como um maestro pouco ortodoxo. Sem ser demolidor, como muitos esperavam, a versão nacional do projecto Cobra esteve à altura das responsabilidades, alcançando uma feliz convivência entre os discursos musicais de cada participante e a marca comum impressa por Zorn. A satisfação com que o nova-iorquino e os 13 músicos portugueses saíram do palco atesta o sucesso de cerca de uma hora de improvisação dirigida.

por Pedro Rios, em www.publico.pt

A Orquestra (não é) Caótica @ Blitz

Texto de Eduardo Sardinha, disponível em pdf.



John Zorn's Cobra @ bodyspace

John Zorn, uma das figuras mais incontornáveis da música moderna (logo, é dispensável qualquer tipo de apresentação), foi rei na Casa da Música por um dia. Sim, porque o concerto às 22h00 não esteve isento de precedentes. Durante o dia, na sala 1, John Zorn conduziu, num workshop organizado pela Direcção de Educação e Investigação da Casa da Música, um ensemble all-star de músicos portugueses (onde constavam Carlos Bica, Carlos Zíngaro, Nuno Rebelo, Albrecht Loops, Gustavo Costa, entre outros) por entre improvisações coordenadas que seriam apresentadas à noite, na mesma sala 1. A Casa da Música assumiu então um papel quase pedagógico, de local de encontro de várias linguagens e de vários músicos sob a batuta de John Zorn, dando razão à máxima de Carl André: “um homem escala uma montanha porque ela ali está. Um artista faz uma obra de arte porque ela ali não está”.

E foi numa sala perto da lotação esgotada que John Zorn, ora sentado, ora em pé, mas sempre virado de costas para o público, conduziu os treze músicos ordenados em semicírculo – a fazer lembrar as grandes salas de ensaio/estúdios de ensembles – desafiando-os a funcionar como um amplo colectivo: dois músicos na bateria e outros dois na percussão, três guitarras, dois contra-baixos, um violino, dois músicos nas teclas e outro ainda no contratear. O “maestro” foi então dirigindo os músicos e gerindo os ambientes musicais recorrendo a placas coloridas e com diferentes letras, com gestos ou com o simples apontar do dedo que por vezes ia percorrendo o ensemble, obrigando-o a reproduzir, um por um e em grande velocidade, um som livre. Esse dedo, orientador de acção, chegou a percorrer o semicírculo várias vezes, trocando de direcção ou saltando aleatoriamente de músico, provocando expressões (musicais) via estímulo-resposta. O desejo podia manifestar-se até no tocar bateria com martelos de São João – tudo parecia fazer sentido ali, fosse qual fosse a sua origem.

Por vezes era dado total controlo a uma secção do ensemble, podendo a percussão tornar-se o centro das atenções, ou qualquer outra, havendo espaço para brilharetes individualistas. Nesse aspecto, o violino de Carlos Zíngaro, magnífico, mostrou ser um dos elementos fulcrais na exploração sonora. Ou Carlos Bica, longe da “solidão” criativa que é Single, o registo recentemente lançado com o selo Bor Land, inconfundível, no contra-baixo. Mais do que um concerto, a actuação do projecto Cobra de John Zorn foi uma experiência. Poucos se recordarão da música propriamente dita, pois a ênfase foi colocada numa comunhão que a transcende. Pois tal como disse um dia Robert Morris, “a simplicidade da forma não é necessariamente simplicidade de experiência”.

André Gomes
link: http://www.bodyspace.net/reportagens.php?rep_id=189

Serpente @ A Forma do Jazz


Domingo 30 de Outubro de 2005. Casa da Música. 22h. As expectativas estavam algo confusas. John Zorn brindar-nos-ia com um dos seus ataques incompreensíveis de fúria? Ou, pelo contrário, iríamos assistir a um daqueles momentos únicos que aparecerá no top dos melhores concertos da década? 23h15. A satisfação era geral. John Zorn e os seus pupilos portugueses foram premiados com largos segundos de palmas levantadas numa sala 1 completamente cheia.

O início revelou-se algo nervoso para os músicos portugueses. Nervoso esse causado provavelmente pela grandeza da sala, do evento e do homem de quem iriam ser escravos na próxima hora. Mas cedo isso passou para segundo plano. Bem disposto, Zorn ia-se mostrando satisfeito com o desempenho dos músicos e não era caso para menos.

Destaque para o trio de cordas Carlos Zíngaro, Henrique Fernandes e Carlos Bica que mostrou grande entendimento entre si, para a concentração e humor dos dois bateristas Gustavo Costa e Jorge Queijo, para Albrecht Loops na guitarra e Eurico Amorim no fender rhodes e para João Martins com o seu contratear e a sua mesa que deram um toque especial em Cobra. Não houve maus músicos.

Uma boa iniciativa da parte da Casa da Música, em colaboração com a Rock'n'Cave, que deu a conhecer a Portugal bons músicos portugueses de música experimental/improvisada.

Texto de André Pintado
http://aformadojazz.blogspot.com/2005_11_01_aformadojazz_archive.html

"Cobra" @ Ananana

"Cobra", o projecto de improvisação conduzida de John Zorn, teve 1000 espectadores na sua apresentação em concerto há um par de semanas na Casa da Música (Porto). O grupo de 12 elementos, esse, era totalmente constituído por portugueses, desde consagrados do experimentalismo nacional como Carlos Zíngaro e Nuno Rebelo a músicos da clássica contemporânea (membros do Remix Ensemble) e do jazz (o contrabaixista Carlos Bica, por exemplo) e jovens improvisadores como Gustavo Costa, Albrecht Loops ou Rodrigo Pinheiro. Curioso: se estes mesmos instrumentistas se tivessem apresentado em seu próprio nome, nem um quarto do auditório teria enchido. E no entanto, o que o público ouviu foi inteiramente a sua música. John Zorn não tocou nem lhes entregou qualquer partitura a interpretar. Explicou-lhes durante meia-hora a sinalética que utiliza para a estruturação do evento "Cobra" e envolveu democraticamente os participantes nesse trabalho de direcção: todos podiam apresentar ao colectivo e ao condutor as suas próprias indicações quanto aos caminhos a tomar. Foi o que fizeram, e com grande competência e inventividade. O público tomou a coisa como uma obra exclusiva do saxofonista nova-iorquino e aplaudiu entusiasticamente. Se ele lá não tivesse estado, nem apareceriam, e no entanto os resultados musicais não teriam sido muito diferentes. Quando é que os portugueses aprendem a apreciar melhor o que os músicos seus conterrâneos são capazes de fazer e a valorizá-los pelo que eles são e podem, sem a caução de uma qualquer luminária vinda do estrangeiro?

A improvisação descontrolada de John Zorn @ JornalismoPortoNet

Músico americano conduziu um "ensemble" de músicos nacionais na Casa da Música, num exercício de experimentação que encheu a Sala 1.

Grande parte do público presente ontem, domingo, na Casa da Música, pode ter sido atraído pelo nome de John Zorn (e pela possibilidade de o ver tocar saxofone), mas não se pode queixar de falta de informação: a Casa da Música anunciou antecipadamente que o músico viria apresentar o seu projecto Cobra, “game piece” composta em 1984.

O conceito do Cobra é simples: um conjunto de músicos faz uma actuação baseada na improvisação, controlada por Zorn, que em palco se coloca numa mesa, de costas para o público. As regras que regem o jogo não são inteiramente conhecidas, já que o músico receia que sejam copiadas numa versão mais reduzida, que lhe retire o interesse.

Qual árbitro, o saxofonista foi dando ordens através de uns cartões coloridos, acompanhados de letras, que mostrava aos músicos, muitas vezes apontando ainda quais deles deviam seguir determinada indicação. O estilo e o andamento serão algumas das informações contidas nesses signos. Além disso, havia outros sinais combinados, como gestos com as mãos (de corte, indicando uma variação rítmica, ou de mão fechada, como um martelo, apelando a explosões ou a mais intensidade), números indicados pelos dedos e mesmo algumas palavras, que quanto mais não seja foram entendidas pelo mover dos lábios ou pela expressividade de Zorn, que em certos momentos se limitava a acenar em sinal de satisfação.

Esses instantes, em que o “maestro” parecia demonstrar pleno deleite, coincidiam a maior parte das vezes com as partes mais caóticas da performance instrumental, que foram de facto as mais fortes e cativantes. No entanto, houve trechos para quase todos os gostos, desde jazz a música clássica e erudita, que por momentos chegou a parecer evocativa de Penderecki.

Quase invariável foi o desfecho numa espiral noise - aliás, foi recorrente a ordem para a desconstrução sempre que o rumo dos vários instrumentos parecia começar a agregar algo parecido com uma melodia coerente.

Um palco cheio de instrumentos

As texturas musicais foram variadas, até porque a diversidade de instrumentos em palco o permitia: duas baterias, dois conjuntos de percussão, três guitarras, um violino, dois contrabaixos, um piano eléctrico, um piano acústico e um contratear constituíam o impressionante arsenal.

Entre os 13 músicos, todos portugueses, oriundos de diversas linguagens musicais (pop, rock, jazz e música erudita), encontravam-se nomes como Carlos Bica (no contrabaixo) e Carlos Zíngaro (no violino, muitas vezes destacado e deixado a solo).

Todos eles foram pré-seleccionados e tiveram depois de frequentar, durante o dia de domingo, um "workshop" de improvisação com Zorn, onde ficaram a conhecer os princípios que viriam a presidir à sua actuação.

Uma das regras era uma espécie de “wild card”: o compositor nova-iorquino punha um boné e apontava para um elemento que passava a usar uma fita branca na cabeça, dando-lhe poderes de condução do "ensemble".

A ovação final parece sugerir um público que não se mostrou defraudado, apesar da proposta musical que lhe foi apresentada se ter revelado de difícil assimilação, pelo carácter experimental e vanguardista.

Durante o concerto viram-se momentos musicais pouco ortodoxos, como um arco de violino a ser tocado num prato de bateria ou num baixo, ou martelos de São João a servir de baquetas.

A sala estava praticamente esgotada, boas notícias para uma cidade que se quer mais animada em termos culturais e para um projecto como a Casa da Música, cuja missão é também a de formar públicos (o concerto estava afinal de contas integrado no ciclo Novas Músicas).

Estar no palco pode ter sido mais divertido do que estar na assistência (a boa disposição dos músicos era evidente), mas não parecem ter sido muitos os que deram o tempo por mal empregue.

João Pedro Barros
Foto: Tiago Dias
Link: http://jpn.icicom.up.pt/2005/10/31/a_improvisacao_descontrolada_de_john_zorn.html

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